O primeiro luto que fiz, deveu-se à morte por aneurisma do meu proto namorado de 10 anos, a empurrar um Optimist pela rampa do Clube Naval de Cascais acima. Estava com o pai dele. Eu tinha 9 anos. Ele chama-se Zé, era doce e tinha uma franja loura para o lado no cabelo curto, à época. Dançávamos quase todas as tardes ou noites, apertadinhos os Slows na discoteca garagem daquela praceta na Pampilheira, onde a miudagem que passava férias ali ou que vivia numa das boas casas fazia festa.
De dia íamos com os pais às praias do Guincho, Abano ou Tamariz , a fugir ao vento que caracteriza a primeira. Ou às piscinas do Clube D. Carlos, do hotel Londres, do Estoril Sol ou à dos Muxaxos de água salgada e altos muros a aplacar a Nortada.
As tardes, senão a dançar na garagem com os mais crescidos, eram passadas a jogar futebol, algum saltar ao eixo, à corda ou ao elástico, patinar ou nas bicicletas às voltas no Largo, que era só nosso.
Todas as tardes aparecia um carro bem-vindo, o dos gelados, que se anunciava com um toque de campainhas. Quem tivesse dinheiro de sobra das semanadas, comprava e compartilhava. Uma lambidela a um, uma lambidela a outro. Sem preocupações com doenças contagiosas. Não existiam, acreditávamos. As crianças não morrem, acreditávamos.
Custou-me muito aceitar a morte do Zé, manter-me crente, a ir à missa sozinha e à catequese. Por fim, não consegui conciliar esta morte sem sentido e os discursos do padre da igreja de Santo Condestável, no púlpito mais as histórias sensíveis e bonitas contadas na catequese da tia Tareca. Aos 10 anos decidi esquecer os homens da igreja e a igreja. Guardei Jesus Cristo por ser exemplar. Ainda hoje penso nos meus lutos terríveis de infância e juventude. O que sofri. Hoje encaro a morte muito bem, pois simplesmente não acredito nela.