segunda-feira, 7 de outubro de 2024

E que é a morte?

tua morte é não poder afagar a lã da tua nuca e beijar-te,
sentir o cheiro penetrante da tua pele na minha
tratar-te, passear entre as tuas coisas, arrumar-te enfim,
coisas tão simples como oferecer-te luxos

tua morte é procurar o teu olhar na multidão e não o haver
é estar na praia e confundir os sons alheios com os teus
ou entre o vento a fustigar os ramos num qualquer pinhal e, então,
virar-me de repente, tentando apanhar a réstea da visita que partiu

é não poder dizer-te que és sublime, doce e adorável
não me poder aquecer no teu corpo enroscados
não poder escolher um presente para ti
é não ter dia, não ter hora não ter nada

jorrem lágrimas altaneiras desta vez,
não das contidas e envergonhadas
quantas mais rolarem melhor,
mais rápido chegará o que já está para chegar

 

todas as manhãs me pedes

poemas de amor, meu amor

como se brotassem de sebes

no meu caminho, sem tremor

 

mas não é assim que acontece

esta coisa da inspiração

é algo estranho que me desce

e me faz doer o coração

 

por isso evito escrever poemas

como evito os picos nas sebes

e outras dolorosas cenas

não sei se me percebes

 

pior quando é forte e intenso

o sentimento que sinto 

não duvides que por ti é imenso

sabes bem que não te minto

 

portanto vais ter paciência

poupar o que já tem certa idade

as cicatrizes fecham sem ciência

os poemas abrem-as sem piedade

 

parece que mais este, e sem dores!

me conseguiste desta vez arrancar

distraíste-me, são mais uns amores

para o meu maior amor guardar

 

Outubro 2010


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Do Luto até à Morte

 O primeiro luto que fiz, deveu-se à morte por aneurisma do meu proto namorado de 10 anos, a empurrar um Optimist pela rampa do Clube Naval de Cascais acima. Estava com o pai dele. Eu tinha 9 anos. Ele chama-se Zé, era doce e tinha uma franja loura para o lado no cabelo curto, à época.  Dançávamos quase todas as tardes ou noites, apertadinhos os Slows na discoteca garagem daquela praceta na Pampilheira, onde a miudagem que passava férias ali ou que vivia numa das boas casas fazia festa. 

De dia íamos com os pais às praias do Guincho, Abano ou Tamariz , a fugir ao vento que caracteriza a primeira. Ou às piscinas do Clube D. Carlos, do hotel Londres, do Estoril Sol ou à dos Muxaxos de água salgada e altos muros a aplacar a Nortada.

As tardes, senão a dançar na garagem com os mais crescidos, eram passadas a jogar futebol, algum saltar ao eixo, à corda ou ao elástico, patinar ou nas bicicletas às voltas no Largo, que era só nosso. 

Todas as tardes aparecia um carro bem-vindo, o dos gelados, que se anunciava com um toque de campainhas. Quem tivesse dinheiro de sobra das semanadas, comprava e compartilhava. Uma lambidela a um, uma lambidela a outro. Sem preocupações com doenças contagiosas. Não existiam, acreditávamos. As crianças não morrem, acreditávamos.

Custou-me muito aceitar a morte do Zé,  manter-me crente, a ir à missa sozinha e à catequese. Por fim, não consegui conciliar esta morte sem sentido e os discursos do padre da igreja de Santo Condestável, no púlpito mais as histórias sensíveis e bonitas contadas na catequese da tia Tareca. Aos 10 anos decidi esquecer os homens da igreja e a igreja. Guardei Jesus Cristo por ser exemplar. Ainda hoje penso nos meus lutos terríveis de infância e juventude. O que sofri. Hoje encaro a morte muito bem, pois simplesmente não acredito nela.