O medo começa pequenino. Não se dá por ele. Dá-se-lhe outros nomes e ele, ele cresce devagarinho, escondido atrás de conceitos socialmente aceites. Chama-se-lhe cuidado, precaução, sensatez. Há sempre uma justificação legitima, adulta e plausível para mascarar o medo. Este começa por inibir os pequenos movimentos, as pequenas decisões… e depois as grandes. Inadvertidamente, o medo alastra corroendo todas as áreas da vida, até à desistência.
A inércia instala-se. Desistimos de mudar de emprego ou vida, de lutar por um novo amante ou hobby, de reclamar das injustiças, de disciplinar os filhos. Não participamos naquele projecto de solidariedade social ou de protecção ao ambiente porque não temos tempo. Mudar de casa é para se pensar mais tarde, depois das férias.
É o medo de falhar, da crítica, o medo da vida. E chegando aqui, continuamos a fugir-lhe ao nome próprio, baptizamo-lo com outros apelidos por vergonha, porque o medo tal como o choro é coisa de crianças e dos fracos. Então chamamos-lhe ansiedade, angústia, stress, dizemos que são as muitas responsabilidades.
O medo, esse sentimento destruidor, quando surge sob o seu próprio nome, surge imponente, incontornável e já fez estragos horríveis. Abortou os sonhos mais belos, as expectativas mais elevadas e a esperança na vida e nos outros.
sexta-feira, 12 de março de 2010
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