sexta-feira, 12 de março de 2010

Muita Medo

O medo começa pequenino. Não se dá por ele. Dá-se-lhe outros nomes e ele, ele cresce devagarinho, escondido atrás de conceitos socialmente aceites. Chama-se-lhe cuidado, precaução, sensatez. Há sempre uma justificação legitima, adulta e plausível para mascarar o medo. Este começa por inibir os pequenos movimentos, as pequenas decisões… e depois as grandes. Inadvertidamente, o medo alastra corroendo todas as áreas da vida, até à desistência.



A inércia instala-se. Desistimos de mudar de emprego ou vida, de lutar por um novo amante ou hobby, de reclamar das injustiças, de disciplinar os filhos. Não participamos naquele projecto de solidariedade social ou de protecção ao ambiente porque não temos tempo. Mudar de casa é para se pensar mais tarde, depois das férias.



É o medo de falhar, da crítica, o medo da vida. E chegando aqui, continuamos a fugir-lhe ao nome próprio, baptizamo-lo com outros apelidos por vergonha, porque o medo tal como o choro é coisa de crianças e dos fracos. Então chamamos-lhe ansiedade, angústia, stress, dizemos que são as muitas responsabilidades.



O medo, esse sentimento destruidor, quando surge sob o seu próprio nome, surge imponente, incontornável e já fez estragos horríveis. Abortou os sonhos mais belos, as expectativas mais elevadas e a esperança na vida e nos outros.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Ratos e rimas

A Rita e o Bolinhas já tiveram bebés! São tão pequeninos que parecem salsichas e têm os olhos fechados. São tão queridos! Vão ficar iguaizinhos aos pais deles. Quando forem maiores e tiverem pelo. São fofinhos.
Os que têm a barriga lisinha são meninos, porque têm pilinha. Os que têm barriga pouco lisa são meninas. Eu gosto muito dos meus hamsters. Eu gosto de ratinhos. Desde sempre! Isto porque sempre acreditei que havia uma ratinha que trocava, debaixo da minha almofada, os meus dentes por moedas. Levava os meus dentes para construir a sua casa e que gostava mais dos dentes branquinhos e sem furos. Que esses valiam mais moedas e que eu deveria tratar bem os meus dentes para a ratinha construir uma casa bem branca. Só que já não acredito nisso. É que eu já sou crescido. É só uma história gira que a minha mãe me contava.

Ainda me diz para eu por os dentes debaixo da almofada. Eu rio-me..., já tenho 7 anos, mas ponho, porque quero comprar um pião novo ou uma gaiola nova para os ratos. Também não gosto de a contrariar. Não compreendo porquê ela continua a insistir com aquela história se já sabe que eu não acredito. Mas é uma história gira que fez eu gostar de ratos.

Há outras vezes que não compreendo a minha mãe. Também não compreendi a minha mãe quando lhe fiz umas rimas. Ela começou por me dizer que não eram rimas porque as rimas têm de rimar no fim e não no princípio. Que eu tinha feito rimas, sim senhor, mas que não eram verdadeiras, pois era no início que nas minhas, as palavras eram iguais.
Depois deste discurso, ficou um bom bocado pensativa e eu também. Não tinha percebido nada da sua explicação. Não fazia sentido então e continua a não fazer quando agora penso no assunto, embora eu não tenha feito mais rimas desde esse dia.
Por fim, ela disse-me que afinal as minhas rimas eram verdadeiras, pois se o eram para mim, também o eram para ela e que não interessava nada se não eram rimas para os outros. E acrescentou que elas eram umas belas rimas, tão boas ou melhores que as outras e para eu fazer mais...sempre que me apetecesse.
Mas já não me apeteceu! Isso também não compreendo porquê.