quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Saudades do 23, 2º dtº

As saudades apertavam. Aliás, iam-se tornando insuportáveis ao longo dos meses que se seguiam ao último encontro. Cada um na sua batalha do dia a dia, intensamente vividos. Ele a trabalhar para a sua subsistência e eu na faculdade de Direito. O contacto partia normalmente de mim. Desafiava-o para um copo no bar da minha família, para poupança das carteiras de ambos. E, a resposta era também quase sempre a mesma, o que transformava a insegurança e a ansiedade que antecedia cada encontro numa sensação de pertença reconfortante. Respondia-me: - Vem antes cá tu ter comigo, a minha casa! Queres?
E lá ia eu, de táxi, após o jantar, por vezes levando-lhe algo de comer, até a Rua da Saudade, na encosta do Castelo de S.Jorge.

Os serões e respectivas madrugadas passávamos serenos, em plena simbiose e quase total exclusividade - só mesmo interrompidas pela mãe Noémia, nas raras visitas, entre documentários, que realizava. Quase sempre em viajem pela província.

Entre música, risos, livros de poesia e Filosofia, discussões, petiscos e pilhas de clássicos gregos, as horas das noites multiplicavam-se. Nada de sexo. E não chegou a haver. Não havia necessidade, achava eu na altura. Não sentia falta, embora a ideia me surpreendesse de tempos a tempos. Estes encontros eram apenas e cada um deles, mais um simples encontro a sós de duas almas gémeas. Éramos jovens... tínhamos toda a vida pela frente... não havia razão para pressas. E, já era tão bom assim.

Não se pense que nunca estávamos juntos em público! Muitas vezes. Em casas de amigos, gelados e cinemadas, comemorações, idas à praia ou dançar na discoteca underground da moda, na época, o Jamaica. Por vezes fazíamos até figurações de cinema juntos.

Mas houve uma noite fatídica que veio alterar drasticamente o rumo da nossa relação.

Lá no alto, por cima da Sé, debruçados à janela, fumando, conversando e apreciando a deslumbrante vista do Tejo iluminado pelo céu estrelado de Julho, do ano de 1981 talvez, desfrutávamos dos momentos só nossos, sobre os quais não falávamos sequer aos amigos. Jurámos amizade eterna.

Mas não se pense que, aos meus olhos, ele não era fisicamente atraente ou que não havia qualquer química entre nós. Não. Havia muita. Um moreno magro e musculado q.b., cabelo escuro, farto e ondulado, olhos negros perturbantes e imensos. Era, na verdade lindo para qualquer mulher com boa visão mas, por razões estranhas, e ainda mais estranhas tratando-se de dois adolescentes, nada disso era contabilizado por mim ou usado por ele.
Só via a sua beleza interior. Tínhamos atingido, realmente, uma amizade muito especial. O ideal de amizade.

O violinista de nome italiano, cujo nome resiste a vir-me à lembrança, fazia-se ouvir no pick up durante quase toda a noite. Repetidamente, mas sem cansar. Em baixo, no rés do chão ecoavam os brados do vizinho Ary dos Santos, provavelmente embriagado. Insultava o eleito do momento. A potente voz projectava-se pelas janelas escancaradas ao calor do Verão, vibrando ao longo das cordas carregadas pela roupa estendida. E nós ríamos baixinho.

Pelas 6 da manhã, chegara o momento de mais uma custosa despedida. Chamámos um táxi. Ainda nenhum de nós tinha automóvel.
Acompanha-me para os adeus, - não me lembro das palavras ditas, mas as do costume com certeza -, e já à porta enlaça-me pela cintura de supetão e aperta-me contra si. Enche-me a boca com um beijo avassalador e sufocante que me pára o coração. De susto. De emoção.
O resultado não foi o esperado. Não retribuí. Não fiquei, finalmente, a passar a noite nos seus braços. O platónico não ficou ali, saudavelmente, enterrado.
Escapei do abraço lançando-me escadas abaixo e refugiei-me no táxi, encolhida, embaraçada, confusa, em lágrimas.

Não recebi notícias do Xaninha nos tempos que se seguiram, como teria sido aliás habitual, caso não tivesse sucedido o que sucedeu.
Quando as deu, já muito depois dos clássicos 6 meses, uma delas era que tinha namorada e que sim, até gostava dela. Mostrou-me uma prova de contacto, com minúsculas fotografias, como que a comprovar que Ela existia realmente na sua vida.
Na ocasião, lembro-me, achei-a altiva, magnífica e linda. Muito mais que eu isso era certo, uma mera cobarde. Nunca a vi. Nunca os vi juntos. O nosso constrangimento não foi ultrapassado.

Enfim... nada se tinha passado de importante para ele, justifiquei, pelo que me autorizei a tentar esquecer o assunto.
Logo a seguir conheci o namorado ideal para mergulhar no bendito esquecimento. Depositei nele todas as emoções contidas e despertadas pelo Xaninha. Foi um romance escaldante, acidentado e apaixonado. E descobri o sexo. Tinha 19 anos.
Um ano depois estava esgotado e então conheci o jovem tranquilo e algo tímido, porém aventureiro tal como o Alexandre, com quem vim a casar 4 anos depois, que a seguir foi o pai dos meus filhos e com quem prolonguei uma relação que só findou passados 15 anos.
Mas, continuava a lembrar-me do Xaninha.

Entretanto, pelo seu lado, fora para os Açores embarcado nos baleeiros durante o período de caça e regressara com uma excelente colecção de fotografias, concretizando enfim um dos seus sonhos: publicar o primeiro livro de fotografia.
Encontrámo-nos no lançamento. Depois da cerimónia, ainda com a sala cheia de convidados, sentou-me consigo num sofá ao canto do salão de recepções, isto no Grémio Literário. Mostrou-me então, delicada e detalhadamente, o seu livro descrevendo-o página a página, ilustrando com palavras suas as magníficas imagens a Preto e Branco e a experiência que tivera naqueles meses acompanhado pelos pescadores de cachalote.
No final, quando um incómodo silêncio teimava em instalar-se, exibiu mais uma prova de contacto. Agora com imagens de uma outra namorada, que, curiosamente também nunca vi... Não estava no evento.
Mas ponto final.
Confirmava-se que nada acontecera de importante para ele. Concluí que ele era homem e portanto seria natural tentar uma abordagem, mais tarde ou mais cedo. Embora o repetisse para mim própria, fazia-o sem convicção alguma.
Dois anos volvidos, o meu coração devido à distância sabia mais e melhor que a minha cabeça. O que me dizia era que sim, que tinha acontecido algo de extraordinário, que ficara suspenso por aquele único beijo. E, é claro, se eu tinha sabido continuar a minha vida com outros dois amores, ele também o poderia fazer. No entanto, um ciúme terrível feriu-me o Orgulho, bloqueou-me o raciocínio. Deixei-me ficar. Nada fiz, mais uma vez. Ou seja, fugi para longe do meu coração. Cobarde. Cobarde X 2.

Nos anos que vieram, consolei-me na ideia de que certamente nos reencontraríamos mais tarde na vida, mais maduros e experientes, para então realizar o que não passara afinal duma promessa de Amor. Acalentei este sonho durante muitos, muitos anos.
Era só preciso esperar e eu esperei. E fui esperando…e terminei o curso… e casei. E comecei a trabalhar. Enfim… a vida foi-me envolvendo com todas as armadilhas, alegrias e problemas, os empregos, a família, a construção do lar, a realização profissional, a compleição de projectos… e o primeiro filho. Era jovem, saudável e queria ser feliz. Fui feliz. Achei até que seria possível esquecer o Alexandre. Lembrava-me raramente dele. Com melancolia, menos saudade e cada vez menos contacto. Ocupada no dia a dia passaram-se entretanto 10 anos. Nem mais, nem menos.

O meu marido adoeceu então gravemente, por estranha coincidência pouco antes do Xaninha morrer. A minha mãe teve conhecimento da sua morte, mas só me informou talvez 6 meses depois, achando que me protegia de mais um sofrimento.
Quando soube, chorei um desgosto tão grande, que senti que iria morrer. Não iria haver Xana no meu futuro. Realizei da pior maneira como é fácil os sonhos escaparem-se entre os dedos. Como pode ser efémero o momento de oportunidade para a sua concretização. Também não pude despedir-me e abraçar a mãe Noémia, que entretanto desapareceu - ou a minha mãe encomendou o silêncio aos mais próximos. Ninguém sabia dela.
Eu queria fazer o imperativo luto. Perguntei junto de colegas, procurei na Net, nas páginas Amarelas. A notícia, porém, chegou bem mais tarde. Pela via mais improvável... quase inacreditável.

Ciclicamente, como os nossos intenso encontros aconteciam, sentia a sua presença. Imaginava-o caído frente à Sé de Lisboa... sozinho... no chão da rua, com o mortal ataque de asma. Martirizava-me e escondia-me num canto da casa, longe de todos, para soluçar baixinho..

Passaram-se mais 10 anos e nada de Noémia.
Nasceu o meu 2º filho, mudei de emprego algumas vezes e de casa, divorciei-me, voltei a gozar a minha juventude e a liberdade, a viver a vida despreocupadamente. Tive as minhas Paixões e várias relações pouco importantes. A vida fluía por todos os poros do meu corpo. Decididamente, era finalmente possível esquecer o Alexandre, tal como era possível ser feliz.

Em 2004 iniciei, mais seriamente, a busca pela Noémia perdida com o objectivo de apaziguar o meu coração e tentar fazer o luto, finalmente. Apostei, pelos motivos óbvios, num colega realizador, supostamente chegado. Um flop. Que não sabia... que ela se tinha mudado para o Porto... que casara com um arquitecto do Porto... Que não sabia o nome, nem ninguém que pudesse dar indicações.
Nada nas páginas amarelas.
Procurei na Net. Só era mencionada nas biografias do O’Neill. Que tinha sido a 1ª mulher. Uma delas também falava brevemente no Xaninha. Confusa com a ausência de pistas, voltei a adiar a empreitada para redefinir estratégia.

Neste entretanto, realizei que o Xaninha se manteve e mantém até hoje como a referência para os Homens que vieram e virão depois dele. Estabeleceu uma bitola, elevada, para mim, numa relação com qualquer homem. Ele é o ponto de excelência. O Amor dedicado, porém desinteressado. O Amor em Liberdade. Um artista em estado bruto. Fotógrafo, escritor e grande amante da Música, literatura e de qualquer forma de Arte.
Um segredo que fica muito bem guardado, atrás da sua timidez e introspecção. Teria talvez feito jus à genialidade do pai, o O’Neill - mas em melhor que o pai, pois herdara o muito bom da mãe, Noémia Delgado.
Não era egoísta, egocêntrico, nem vaidoso, antes humilde e generoso. Um verdadeiro poço de virtudes, garanto! Mas morreu cedo. Demasiado jovem, e eu também para prever essa possibilidade. Pensava eu que teríamos uma vida inteira ainda pela frente. Morreu com 33 anos. E eu, fiquei só. Casada, mas só. Com filhos. Com família. Com amigos. Porém, só. Só, apenas porque sem o Xaninha. Com o futuro pela frente, mas sem Esperança.

Uma noite acordei com o meu próprio choro, convulsivo, só que, não o sentia como meu... o choro não era meu. Reconheci-o como sendo dele. Do Xana. Assustei-me. Perguntei novamente pela Noémia e, nada.

Passado muito pouco tempo, um mês talvez, tive outro sonho. Sonhei vividamente que estávamos juntos lá no alto, na rua da Saudade, a conversar e a rir como de costume. Despertei do sono com o som da minha gargalhada. Num golpe de intuição liguei novamente para o antigo número de telefone da sua casa e, desta vez, atenderam.

Esperei 13 anos por este encontro. A afinidade é infinita, a empatia total. O luto está a ser feito. Hoje, também nós jurámos amizade até que a morte nos separe... temporariamente, sei-o agora.

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